Faculdade. Uma palavra como outra qualquer e facilmente localizada no dicionário de língua portuguesa, mas que pode assustar algumas pessoas e atormentar suas vidas durante alguns anos.
Desde pequena sonhava em ser veterinária. Não brincava com outras crianças na rua, não fazia ballet, não dava aulinhas para meus amiguinhos de escola, fingindo ser professora. Ao invés disso, meu quarto se transformava diariamente em uma clínica veterinária e pet shop e eu passava as tardes costurando meus bichinhos de pelúcia, cortando-os para cirurgias imaginárias, conversando com proprietários inexistentes e injetando água nos pobres animais inanimados com uma seringa cedida por meus pais, médicos e também grandes exemplos como profissionais da área da saúde.
Com o passar dos anos, minha vontade de ser médica veterinária e cuidar dos animais só aumentou, ao contrário das expectativas e, sendo assim, por dois anos seguidos fiz cursinhos preparatórios para o vestibular. Com êxito no final do segundo ano, entrei para a melhor faculdade particular na área, com méritos e bolsas de estudo. Finalmente ia realizar meu sonho.
Encontrei minha paixão logo no primeiro dia de aula. A anatomia é a especialidade da medicina que mais me encantou e encanta até hoje. Adorava os professores, os colegas, usar branco todos os dias e passar o dia no laboratório dissecando cadáveres. Mas, nem tudo é perfeito e logo descobri minhas dificuldades para os estudos da bioquímica e citologia. Estudei incansavelmente por meses a fio. Venci barreiras, medos, notas. Me surpreendi. Pouco antes do final do ano letivo, primeira quinzena do mês de outubro, comecei a falhar com as notas, não conseguia acompanhar tão bem o ritmo dos trabalhos e provas e nem podia imaginar que meu sonho estava por acabar.
Dois meses depois, em 26 de novembro de 2006, minha mãe faleceu. Sem mais nem menos, do dia prá noite, sem aviso prévio, sem despedidas, sem conselhos, sem motivos. Meu mundo desabou e, com ele, meu sonho. Não pude continuar na faculdade por motivos financeiros e psicológicos e deixei pra trás meus amigos, meus professores, os laboratórios, o cheiro de formol, meus jalecos brancos, meus livros de anatomia.
O ano teve fim, 2007 começou devagar e era hora, então, de tomar outros rumos na vida. Fui morar com meus avós paternos, meu rato e meu gato preto. Tudo era diferente, vazio, confuso. No final do mês de janeiro, meu pai me perguntou se eu queria cursar outra faculdade e, foi aí, que escolhi o jornalismo.
Sempre fui apaixonada por livros, por escrever, pela comunicação em um todo. Minha tia é jornalista há muitos anos e achava o máximo quando ela contava sobre as festas da faculdade, o pessoal descolado da área de humanas e me identifiquei com o curso de cara. Na nova faculdade, meus amigos se pareciam mais comigo, eu estudava menos, tirava notas melhores, descobri talentos que eu nunca imaginei existirem em mim e além de ser mais perto de casa, agora eu podia pintar meu cabelo de rosa e ter quantos brincos na cara eu quisesse.
Comecei estudando no período da manhã. Minha turma era grande e misturavam-se os cursos de jornalismo, relações públicas, rádio e TV e publicidade. Conheci muita gente, dei muitas risadas, tive excelentes professores, outros nem tanto, matei algumas aulas no palquinho da faculdade, outras no gramado da mesma, mas adorava a magia que rodeava o curso de jornalismo. Era minha mais nova paixão. No entanto, não fui suficientemente persistente para continuar sem acidentes de percurso. Repeti o segundo e o terceiro semestres por conta de uma depressão profunda e que parecia ser interminável para mim. Não desisti. Lutei contra, refiz os semestres e estou no segundo ano.
Se me arrependo? De forma alguma. Aprendi lições que não ensinam por aí, aprendi o valor que as coisas têm, fiz amigos, colegas, a cada semestre as aulas mudavam, conhecia mais coisas, aprendia mais. Hoje, corro atrás de algumas notas baixas e mensalidades atrasadas, mas nada demais. Tenho amigos que me amam, que me admiram, que me incentivam e quebram todos os galhos que podem e que não podem para mim. Tenho professores que me respeitam, me mostram a magia do jornalismo e que reconhecem em mim qualidades de uma “boa futura jornalista”. Estou feliz e ciente da minha capacidade. E admito: Sonhos podem ser mudados, basta querer.
