Também conhecido como Obelisco de São Paulo, O Obelisco do Ibirapuera é o maior monumento da capital paulista e traz em sua arquitetura de mármore um pouco da história da Revolução Constitucionalista de 1932
Com quase oitenta metros de altura e uma atraente forma trapezoidal, o Obelisco do Ibirapuera é o maior monumento da cidade de São Paulo e está localizado em Moema, um dos bairros mais requisitados e imponentes da capital. Como um monumento funerário, o Obelisco é uma homenagem aos falecidos durante a Revolução Constitucionalista de 1932 e teve sua obra concluída em 1970. Em seu subsolo, foi construído um mausoléu que abriga até hoje mais de 170 corpos, entre eles os corpos dos famosos estudantes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo (o M.M.D.C.), além de um pequeno museu contendo fotografias da época
Tombado pelos conselhos estadual e municipal de preservação de patrimônio histórico, o Obelisco supostamente deveria receber cuidados e atenção dobrados. No entanto, para alguns, é exatamente o contrário que acontece nos dias de hoje. Filho de ex-combatente, João Nascimento Telles Jr., de 26 anos de idade e vizinho do Parque do Ibirapuera, fala indignadamente sobre o abandono no qual que se encontra o monumento. Segundo ele, o maior confronto militar do Brasil do século XX, onde brasileiros se uniram contra o presidente Vargas, não pode ser esquecido e tão pouco tratado com descuido. “Eu como filho de ex-combatente me sinto no dever de apoiar reformas no Obelisco. É vergonhoso o estado do monumento e revoltante o fato do mausoléu ter sido fechado por falta de resistência ao vandalismo, um absurdo.”, diz o rapaz.
Para o comércio, no entanto, o valor histórico do suntuoso monumento não é muito importante. Para Liana Sá, de 43 anos de idade e vendedora ambulante do Parque do Ibirapuera há quase uma década, o famoso Obelisco não passa de ponto de referência na grande São Paulo, apesar de admitir que a gigante construção em mármore atraia muitos turistas e moradores para o parque, aumentando suas vendas e garantindo seu emprego. “Não sei o que significa. Só sei que vem muita gente aqui ver as estátuas e sempre compram alguma coisa comigo”, conta a comerciante em meio a sorrisos.
Conseguir uma boa foto do Obelisco não é difícil, apesar dos portões que dão acesso para o monumento estarem fechados durante a semana devido às depredações corriqueiras. No entanto, chegar ao mausoléu e documentar seu interior não é uma tarefa fácil. Em uma quarta-feira como outra qualquer, um grupo de três policiais militares chegam para investigar um carro recém- largado e supostamente roubado, no local.
Ao perguntar sobre o motivo pelo qual o pequeno museu está impossibilitado de receber visitações, o militar Sérgio Padilha de 42 anos de idade, diz que o vandalismo tomou conta do Parque do Ibirapuera em geral e que medidas drásticas tiveram que ser tomadas. “Infelizmente as pessoas não têm idéia do que estão depredando. Quase ninguém sabe a história do Obelisco e, por isso, nem se dão conta do mal que estão fazendo para a própria cidade em que vivem”.
Nas proximidades do monumento, Rodrigo Câmara, estudante de 20 anos e que foi ao Parque do Ibirapuera pela primeira vez com mais três amigos, observa com admiração o Obelisco da Revolução Constitucionalista. Estudante do primeiro ano do curso de história da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o gaúcho fala maravilhado sobre as curiosidades do monumento e também das outras homenagens encontradas no bairro de Moema.
“É maior do que imaginei, lindo, uma obra-prima da arquitetura nacional. É um conjunto cultural e a cripta com as insígnias são perfeitas. Como estudante de história posso dizer que é a escultura mais rica que já vi na vida, com alegorias e simbologias fantásticas.”. Os companheiros de viagem concordam com Câmara e ressaltam o Obelisco dos Heróis como um marco, criado por Galileo Emendabili.
Um pouco distante do Parque de São Paulo e também do Obelisco do Ibirapuera, memórias vivas da construção do monumento e da Revolução de 1932 vêm à tona numa entrevista emocionante.
Moradores do bairro do Tucuruvi desde pequenos, Lúcio Passamai, médico de 82 anos e sua esposa Anary Gomes Passamai, dona de casa de 80 anos de idade, contam com detalhes a história do Coronel Ary Gomes, pai de Anary, que participou da revolução na intendência de seu batalhão, fornecendo alimentação, abrigo e medicamentos para os soldados.
Nascido em 18 de Abril de 1890 na cidade de Ribeirão Preto (São Paulo), Ary sempre foi apaixonado por assuntos político-militares. Sonhando com a carreira militar desde pequeno, ingressou na Força Pública do Estado de São Paulo em 1908, sofrendo preconceitos por ser soldado, sendo repudiado e desprezado por pessoas de famílias importantes da época. Com a carreira sempre em ascensão, já tenente, entrou na Escola de Odontologia e Farmácia de São Paulo em 1922, formou-se cirurgião dentista e em 1924 foi promovido ao posto de capitão.
Grande orador e honrado militar, viveu até 23 de julho de 1975, conseguindo assim, assistir ao “nascimento” do Obelisco do Ibirapuera. A família conta que o Coronel Ary Gomes sempre falou sobre a Revolução com muito orgulho e muita paixão à profissão. “A construção do Obelisco foi algo indescritivelmente importante para ele. Fez questão de acompanhar de perto cada passo da obra e fez uma festança no bairro quando o projeto foi concluído com sucesso. Para nós, é uma parte da família, da nossa história.”, diz Anary, uma de suas 4 filhas.
Em seu diário da época das batalhas, lêem-se anotações do começo da Revolução (páginas 126-127): “O movimento deflagrado na capital paulista contaminou em 24 horas todo o estado e encheu de entusiasmo todos os habitantes de São Paulo. Creio, porém, que apenas o acompanhará nesta grande arrancada para a Constitucionalização imediata, apenas o sul de Mato Grosso.”
À base do monumento, junto à entrada da capela e da cripta há uma inscrição de Guilherme de Almeida, advogado e grande jornalista da época, que diz: "Viveram pouco para morrer bem. Morreram jovens para viver sempre." E é assim que, ao que tudo indica, o grandioso Obelisco do Ibirapuera é e sempre será lembrado. Foto: Lília Marcondes
