Tãoooooo surtada que só consigo reparar na luz refletida do abajour no piso claro que cobre o chão da minha sala. Enquanto isso, apóio minha cabeça no braço direito e aprecio modorrentamente o calor do meu moletom velho.
As bolachas recheadas e o terceiro copo de café me fazem companhia enquanto fico aqui aboletada, sentindo-me vazia, triste, rejeitada, “inamável”; uma stalker que se afunda a cada fuçada de orkut, ao descobrir coisas e sentimentos alheios que, no fundo, já sabia que estavam lá, só não tinha visto ainda. Faltou-me coragem pra ver.
Ao conversar com uma amiga, noto que sou insuficiente. Sempre fui insuficiente. Por quê? O que me falta? Preciso saber qual meu grande erro. Qual gigantesco e terrível crime posso ter cometido pra ser motivo de tantas dúvidas, de tanta desconfiança, de trocas inexplicáveis, de abandonos repentinos, de rejeições incontáveis, de ódio, desprezo, falcatruas, injustiças, traições?
Nunca engravidei por acidente ou fiz um aborto. Terminei a porcaria do colegial, fiz um curso de línguas; eu nunca matei um parente ou fui amante de homens casados. Nem bater em alguém eu bati. Até recebi sacramentos católicos para a dúvida e espanto de muitos, com exceção do matrimônio e da extrema-unção, claro.
Bem, tudo poderia ser pior: eu poderia estar roubando, matando, destruindo vidas com mentiras macabras e imperdoáveis. Poderia ser uma puta, ou uma lésbica; uma drogada junkie lifestyle que provavelmente envelheceria solitária e rabugenta com os seus 27 gatos e sem família.
A triste e inegável verdade é que: o cansaço e a negatividade estão me alcançando rapidamente e querem saber? Isso não é nada positivo para a minha pessoinha de 1,58 de altura e que, pra minha total infelicidade, possui um coração de 158 hectares.
Tento achar alguma palavra que defina minha atual situação mental; meus pensamentos, essa confusão toda que domina meu cérebro, incessante e loucamente. Não dá! Não existe! Frustração? Zica? Infelicidade? Karma? Preferia estar tirando minhas cutículas com gilete a estar no meio desse furacão sentimental que me arrebata no auge de meus 22 anos.
Poxa, queria meu lado "Bukowski" de volta. Sinto falta dele. Falta de ser louca, irresponsável, mentirosa, fria, sozinha e feliz assim. Mas não! Meu lado adulto surgiu dos bueiros há alguns meses e agora quer tomar conta até do meu coração. Posso ser adulta e responsável sem sentir coisas de adultos? Please !!!
Ok, não sinto falta do meu lado macabro e perigoso. Apenas sinto medo dessa pessoa nova que substituiu a antiga Lilith porra louca e peçonhenta. Não sei lidar com ela ainda. Parece aquele presente que você tanto queria e, agora que está em suas mãos, te falta o manual para conseguir montá-lo sem fazer muitos estragos.
Mas por um momento até me esconderia de novo na caixinha desbotada e fedendo a cigarro que me acolhia há algum tempo atrás. Era triste às vezes, mas mais seguro. Eu sabia onde estava pisando. Tinha certeza de que tinha deixado todo meu lado humano, sentimental e idiota pra trás. E agora, o que me acontece? De repente surgem vontades, uma paixão de filme hollywoodiano, sofrimento, ciúmes, dor, dúvidas e lembranças que doem e atormentam mais do que técnicas japonesas de tortura ou marmitex de alumínio rasgando meus dedos pequenos e branquinhos.
Estou envelhecendo? Amadurecendo? Enlouquecendo? Capaz. Semana passada tive essa impressão quando peguei umas lingeries adquiridas no ano passado, para experimentar. Coisas com lantejoulas e lycra fluorescente que comprei na empolgação do emagrecimento fugaz. Senti que minhas celulites e meu culote podiam estragar mais aqueles trajes do que um estilete ou até mais que algumas mastigadas do meu elétrico cão. Seria isso motivo para pânico? Seria isso sinal de alguma coisa relevante?
Não costumo ligar pra esse tipo de detalhe, mas hoje? Hoje estou ligando pra tudo! Tudo me faz mal, tudo me causa angústia, tudo me deprime. Choro por qualquer coisa. Consegui me comover com cenas de novela e até mesmo com a letra do forró depressivo que minha querida vizinha faz o favor de ouvir toda santa tarde.
Queria saber mostrar o quanto posso ser transparente, amiga, companheira, amável, engraçada, sexy, fiel, útil, infantil, bonita, inteligente, segura, mas acho que não sou capaz. Ou não querem ver. Ou, vai ver, o mundo está todo torto mesmo e eu não me encaixo nele, como sempre pensei que fosse ser quando crescesse.
O fato principal e inegável é que: não me reconheço. Não me conheço. Não sei se um dia soube quem eu sou, ou era. Sei que hoje sou confusa, sou cega, sou apaixonada, sou inconsequentemente preguiçosa e egoísta, sou uma criança assustada que não conseguiu sair de casa por conta de meia dúzia de pesadelos.
Mas sei também que, acima de tudo, sou real; sincera, cagona, espontânea; livre, mas real. Sou eu. E, mesmo que seja minha única companhia e minha única platéia, levanto-me e bato palmas; por que sou minha; sou eu.
